No escritório do Panda…

Hello folks!

Depois de ler Annabel&Sarah fiquei mega curiosa, e bolei umas perguntinhas pro Jim Anotsu. Muito metida como sou, pentelhei ele e ele respondeu minhas singelas perguntinhas.

Obrigada Jim *-*

Da onde surgiu a ideia de Annabel e Sarah?

Eu estava frustrado e com raiva da minha escrita. Eu nunca pratiquei esportes ou participei em festas porque estava ocupado tentando escrever um parágrafo que não fosse medíocre. E até então, não sentia algo que fosse só meu. Era como se eu fosse Gerard Way tentando cantar no Radiohead, simplesmente não funcionava. Estava bem perto de largar tudo e fazer alguma coisa séria e respeitável, como virar hippie.

Eu nunca fui um bom aluno, estava mais ocupado em escrever histórias no fundo da sala. E foi numa aula de matemática que imaginei essa garota no meio de brumas, e ela encontrava abóboras de halloween que faziam rap. Era simplesmente muito esquisito para eu não investir! – Pena que eu as cortei da versao final do livro. Era uma parte horrível e causava vergonha alheia, mas eu achava tão cute.

Foi a minha epifania: não escrevo sobre elfos, espadas sagradas e coisas desse tipo. Sou um leitor de fantasia medieval, mas não era o que me chamava muita atenção como escritor. Estou sintonizado com a minha época, com o fato de ser jovem numa geração fast-food. E “Annabel & Sarah” é o resultado disso.

Notei que deveria escrever da forma mais sincera e usando aquilo que eu realmente conhecia: sentimentos, música, um pouco de rebeldia e mudança. E como sempre fui apaixonado por contos de fadas, não havia outra opção para mim, não de verdade. Criei as duas garotas e em seguida fui montando a história, porque os contos de fadas têm estruturas bem rígidas e era importante manter isso, apesar das referências pop e tudo mais.

A mão que puxa Sarah, tem referencia no filme do Steven Spielberg, Poltergeist?

Essa é uma coisa engraçada ao trabalhar com intertextualidade, cada um se apropria de uma forma. Eu vi esse comentário pela primeira vez num blog. Eu acho esse filme interessante, mas não foi uma das minhas referências ou influências. Annabel&Sarah é uma narrativa em abismo e com imagens  que dialogam com outros textos e com a cultura popular, então acho até natural que comentem coisas assim – cada pessoa pega o reflexo de algo e projeta sobre.

Voltando a falar sobre essa cena em Annabel, não é por causa do filme. O fato de ser uma TV é quase coincidência, sendo que um espelho ou porta serviriam ao mesmo propósito. Nesse tipo de narrativa, seja em Alice no país das maravilhas, Un Lun Dun de China Mieville ou na trilogia Borribles, existe esse momento de transgredir uma barreira, – a porta – porque o non-sense só pode existir diante da ordem e do sentido. A TV nesse caso, ou a porta em Alice, é o desejo de transgredir, fugir do monótono, que só pode existir após a superação do limiar.

Cada pessoa traz seu próprio universo particular, sua bagagem cultural e dessa forma, cria o sentimento de apropriação que temos com histórias e poesias. É o que eu senti ao ler alguns poemas de Dylan Thomas pela primeira vez, não entendi direito o significado, mas as palavras ficaram grudadas na minha mente, como se eu as conhecesse. Eu buscava nas minhas – parcas – referências um apoio para compreender o que lia. É o que Affonso Romano de Sant’Ana se refere ao dizer re-conhecimento.

As cidades para onde Annabel e Sarah são mandadas, refletem o jeito delas no ‘mundo real’ .. Annabel sombria, perspicaz, sagaz e sarcástica, já Allegria para onde Sarah foi, reflete seu mundo onde tudo é perfeito. Esta foi sua intenção? Fazer com que elas vissem um pouco delas mesmas como observadoras?

Em partes… sim. Isso foi uma coisa que rodou a minha cabeça. Sempre pensei que nos contos de fadas, naqueles que amo e que realmente fazem a diferença pra mim, são os símbolos que descrevem os personagens e dão margens para que cada pessoa possa retirar o que puder da narrativa. E cada vez que você lê um conto maravilhoso, você terá uma visão diferente dele.

Basta pegar “O Pequeno Príncipe” ou “Watership Down” em momentos diferentes da sua vida, a leitura nunca será a mesma. Porque nesse tipo de narrativa – e principalmente quando você leva em consideração que crianças e adolescentes também partilham disso – não é comum encontrar um “monólogo de Molly Bloom”.

E essa foi uma forma que preferi usar em Annabel, o cenário como um pequeno reflexo do que elas são. A intenção era essa. Mas saber o nível de sucesso alcançado, bem, aí é fechar os olhos, roer as unhas e esperar o que os leitores podem achar principalmente os menores, é deles que eu realmente tenho medo. Um jovem insatisfeito com um livro é mais perigoso do que mil esquilos-ninjas da Yakuza.

As referencias musicais, foram as que você escutava na época em que escreveu o livro?

Sim e não. Eu sempre fui apaixonado por música. Quando eu paro pra pensar na minha vida entre os 11-19, a única coisa que vem na minha cabeça é um trecho da música Headphones da Bjork: “meus fones de ouvido, eles salvaram minha vida”. Eu respiro música 24 horas por dia e isso se infiltra em tudo o que escrevo. As coisas que estão em Annabel em parte se referem ao que eu mais ouvia naquela época, bandas como Franz Ferdinand, Smashing Pumpkins e The Dresden Dolls – que realmente é uma das espinhas dorsais de Annabel&Sarah. Mas, além disso, todas as referências musicais foram escolhidas pelo que elas podem representar. A citação de uma banda como The Wombats não é gratuita, mas porque se você olhar as letras deles, vai ver que uma música como “Let’s Dance to Joy Division”  tem muito da Annabel: “Vamos dançar Joy Division e celebrar a ironia, tudo está dando errado, mas estamos tão felizes.” Coisas que eu ouvia na época mas meticulosamente selecionadas na minha caixinha de discos, CDs e arquivos.

Se você fosse engolido por um livro e vivesse dentro da história dele até descobrir uma saída, qual seria o livro?

Essa é uma pergunta difícil e não poderia ser feita a nenhum amante de livros. Eu simplesmente gostaria de estar em todos pelos quais já li, e realmente estive neles. Afinal, eu senti o cheiro de terra molhada e grama quando li “Mago e Vidro” do Stephen King, então eu sei que estive lá. Mas se fosse pra escolher, acho que seria “Duna” de Frank Herbert. Eu não sou muito fã de sci-fi, mas Duna está muito além de qualquer rótulo para mim, e sempre que estou com dúvida ou medo de alguma coisa, recito um trecho do livro que me acalma imediatamente. Puxa, eu amaria visitar as tribos do deserto, fugir de vermes da areia e estar no meio de todas as intrigas.

Jogo rápido

Uma musica: This Mess We’re In – P.J Harvey (feat Thom York)

Uma banda: Weezer

Um filme: Reservoir Dogs – Quentin Tarantino

Um momento: Eu olhei pra uma menina e ela olhou pra mim.

Uma comida: Macarrão instantâneo

Uma cor: Azul

Um animal: Lêmure

Dia ou noite? Noite

Verão ou inverno? Inverno

Um desenho animado: Serial Experiments Lain

(para quem nao entendeu o No escritório com o Panda, é pq o Jim fala que é um panda.)

Just enjoy the show.

xoxo

Mads.

About Mads

a bookaholic.

Posted on August 31, 2010, in bookland. Bookmark the permalink. 9 Comments.

  1. ADOREIII!! O Jim é um fofo!!

    PRECISO LER O LIVRO!!! aaaaaaaaaaaaaaaaaa

    Ótima entrevista Mads!! Parabéns de verdade \o/

  2. Nossa essa coisa do espelho me lembrou de lendas urbanas… RSRS

    Então, música é tudo, como disse o panda, não dá pra viver sem, da ritmo a vida…

    Essa coisa da análise psicológica indireta dos personagens a partir do mundo em que elas são enviadas é uma boa reflexão, aliás essa coisa de análise psicológica meio machadiana, né….
    O que é legal, tem todo um conteúdo no livro..

    E Jim, morra de medo mesmo, porque o que eu vi de menina querendo matar escritora caso o casal não ficasse junto no fim…
    hehe

    Mads vê se isso é pergunta que se faça a uma pessoa que ama os livros, não tem como escolher só 1…
    Quem sabe 2, 3, 4, 5 talvez…
    Por ai via né…
    UAHUAHAHA

    =D

  3. uma comida: macarrão instantaneo = miojo

    aehuaehuaheae

    ooooooooooo sua inseta! tem spoiler do livro na entrevista! x______X

    eu uqero ler, nao achei pra comprar e to contando que vou ganhar… beijos hauehauehuaehuaeae

  4. Quem fez a ilustração, o Jim?

  5. Amei a entrevista, Mands! *_______*
    Você fez perguntas super criativas!!
    E o Jim é um saco de pão muito legal! *-* Entrevistas me deixam ainda mais curiosa para o próximo livro! *-*

  6. Ate que pra uma arquiteta, vc tbm é uma boa jornalista hauhauhauahua
    E o Jim tem bom gosto, AMOOOO PJ Harvey! \o/

  7. o sempre querido jim mandando muito bem a entrevista!
    recomendo o livro!

  1. Pingback: Tweets that mention No escritório do Panda… « -- Topsy.com

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